DREAM FACTORY
Tendo recentemente aberto um novo atelier e showroom na zona oriental da cidade, o projecto da Sá, Aranha & Vasconcelos está mais forte que nunca.
Depois de muitos anos com um showroom localizado na agitada rua Castilho, todas as pessoas esperariam que o atelier Sá, Aranha & Vasconcelos (SAV) escolhesse novamente o centro da cidade para a abertura de novas instalações. No entanto, a escolha recaiu sobre um antigo armazém de vinhos, localizado numa estreita rua na pitoresca zona do Poço Bispo. Apesar da opção ter sido pouco usual, logo que entramos no espaço percebemos que a escolha não podia ter sido mais acertada.
Sendo a garagem o ponto de entrada para o mundo da SAV, de imediato reparamos que nada é deixado ao acaso. Desde os esculturais candeeiros concebidos com antigos faróis de automóveis até ao sofisticado elevador que nos leva aos pisos superiores, todos os detalhes são executados de forma pormenorizada, deixando-nos deveras curiosos relativamente ao espaço dedicado ao showroom e atelier.
Após termos acedido ao primeiro piso através de umas cénicas escadarias, nas quais as paredes apresentam tijolo e pedra exposta, somos recebidos de forma calorosa por Joana Aranha, uma das sócias da SAV. Tendo sido uma das fundadoras do atelier nos anos oitenta, conjuntamente com a sua irmã Carmo Aranha e Rosário Sá, a designer de interiores leva-nos numa essencial visita guiada às novas instalações, sendo que a primeira paragem foi no inspirador e luxuoso showroom. Instalado num mezanine de aspecto industrial, o requintado espaço de aspecto vivido é marcado por uma eclética e harmoniosa mescla de confortáveis sofás de grandes dimensões, obras de arte, iluminação e uma série de objectos invulgares, tais como pincéis usados, neons e corais. “O showroom funciona como uma montra permanente do nosso trabalho, das nossas inspirações. Aqui agrupam-se peças de design contemporâneo idealizadas fundamentalmente pela equipa SAV e por outros designers, dos ‘notáveis’ mundiais até aos nomes menos conhecidos de Portugal e dos quatro cantos do mundo, mas também peças únicas que podem variar entre o barroco ou os anos sessenta, setenta, oitenta. É também aqui que os projectos de menor dimensão podem ser executados, como já acontecia na loja da rua Castilho”, refere Joana Aranha. Apesar do showroom ser a parte mais visível das novas instalações, a estrutura no Poço Bispo alberga todo o mundo e equipa da SAV, que actualmente conta com trinta colaboradores. Desde a espaçosa sala dedicada aos tecidos, onde milhares de amostras se distribuem por diversos expositores, até uma biblioteca repleta de livros de design e arquitectura, o primeiro piso encerra igualmente alguns espaços de trabalho, sala de reuniões, armazém e um arejado gabinete com vista para o Tejo, onde as três sócias fundadoras se refugiam da agitação do showroom e atelier. “Passo aqui pouco tempo, devido aos diversos projectos em que estamos envolvidas, no entanto adoro estar aqui de manhã a beber o primeiro café e ouvir os cavalos da GNR”. Já no segundo nível, a designer guia-nos até um dos pontos mais fulcrais da actividade do atelier, a sala de projecto de arquitectura. De entre amostras dos mais diversos materiais e plantas de obras, Joana Aranha refere com orgulho que “estamos neste momento em mãos com um projecto em que o edifício já é levantado com a nossa colaboração. Formamos equipa desde a base, já com o arquitecto ‘pai’ ou arquitecta ‘mãe’, conseguindo assim o melhor layout com bom aproveitamento dos espaços, sempre um objectivo a conquistar. Depois desenvolvemos todo o projecto de arquitectura de interiores até ao mais pequeno detalhe, o ponto de luz no lugar certo, o ‘arquivo’ das gravatas ou dos sapatos por exemplo”.
Tendo desenvolvido projectos de arquitectura e design de interiores nos mais diversos ambientes e possuindo clientes provenientes dos quatro cantos do mundo, a designer destaca alguns dos projectos do atelier que mais gosto proporcionaram a conceber. “Um deles é bem interessante, é um hotel de charme na Graça que tem como tema a cidade lindíssima que é Lisboa. É uma obra que está para começar. Explorar o conceito ‘Lisboa’ foi muito estimulante e gratificante ao mesmo tempo. Outro, foi a nossa entrada no mundo náutico, com o projecto de um iate de grande porte, um Maiora 39, porque nos ‘obrigou’ a entrar num novo universo. Um autêntico trabalho de relojoeiro à distância. Outro ainda foi uma ‘viagem’ ao mundo rural onde nos deixaram ‘brincar’ numa quinta de família, onde cada casa é um projecto distinto em temas que se interligam e dentro desse mesmo projecto, o restauro de um lagar onde a grande família se reúne de vez em quando e no qual se desenhou e executou uma mesa de jantar com 40 metros quadrados. Por último e não menos importante, o projecto que construímos para nós, num edifico de 1922, um antigo armazém de vinhos, onde criámos a nossa nova casa e recebemos os nossos clientes. É a nossa fábrica de sonhos”.
Para além da entrada no mundo náutico – um segundo projecto já se encontra em andamento, um Baglietto 42 metros ainda em construção, que será apresentado na conceituada feira de Génova em 2010 – a SAV prepara-se para se estrear na aviação, através da concepção dos interiores de um jacto privado Falcon 7X.
Apesar dos muitos e diversificados projectos desenvolvidos até hoje, a criatividade e desejos da SAV parecem não ter limites. “Gostaríamos de desenvolver um barco de cruzeiro daqueles que são verdadeiros hotéis flutuantes, as carruagens do Expresso do Oriente, um avião comercial, um hotel de charme obre a areia e um lodge algures no mundo, talvez em África”, assevera Joana Aranha com confiança, acrescentando que as suas expectativas para o futuro da SAV passam por “manter o rumo. E levar cada vez mais para fora das nossas fronteiras os nossos artífices, a nossa cultura e os nossos valores. Implementar o desenvolvimento da marca SAV associada a outras linhas de produtos. Continuar a criar apoios aos novos valores nacionais da nossa área de actividade com a criação de estágios, por exemplo, ou quem sabe com a criação de uma bolsa de estudo”.
Revista Essential Lisboa 35 (Dez-Jan 2009/2010)
Texto: Álvaro Tavares Ramos